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A mentira banalizada e até institucionalizada

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.05.14

A verdade, a autenticidade, a integridade, não são muito valorizadas hoje. Ser verdadeiro consigo próprio e com os outros. A mentira está generalizada, de tal modo que é vista como uma qualidade comparável à criatividade nas relações humanas, para as tornar mais interessantes. Como se houvesse qualidade mais interessante do que a verdade, o que é genuíno e autêntico. E no entanto, a cultura actual desvaloriza essa qualidade atribuindo-a ao ingénuo, ao parvo, ao pateta, ao facilmente enganado.

 

Nesta Fogueira das Vaidades, filme que escolhi para falar destas qualidades ligadas à verdade, hoje tão desvalorizadas, vemos esse ingénuo (Tom Hanks), a sedutora e manipuladora (Melanie Grufith), o cínico oportunista (Bruce Willis, aqui também narrador), o pregador vaidoso e ganancioso, o conselheiro estratega e o político ambicioso, e nem a família da vítima atropelada escapa à espera da compensação final. Mas também vemos o amor incondicional e a lealdade do pai, e a voz da sensatez através do juiz a apelar aos valores humanos fundamentais da verdade, do respeito pelo próximo e da integridade.

 

Este filme também é uma lição sobre os jogos do poder a vários níveis e a sua indiferença perante os prejuízos e sofrimento que pode causar a pessoas concretas. É também uma lição admirável sobre a mentira, como alguns a vivem como regra essencial da relação com o mundo e os outros, e como outros defendem os seus princípios, a verdade e a lealdade, arriscando perder tudo o que define uma vida segura e confortável: o trabalho, o estatuto social, a casa.

O nosso herói (Tom Hanks) é colocado no meio desses jogos de poder que lhe são completamente alheios, dos quais não se apercebe sequer, e com os quais não foi preparado para lidar. As suas falhas humanas são próprias de quem cresceu e viveu num meio protegido. Mas o reverso da medalha é que um meio social privilegiado é muito mais exigente com os seus: uma falha que comprometa a imagem do grupo (família, círculo próximo) é logo dramatizada até à exclusão. Só o pai o apoia até ao fim: a prova da sua inocência em tribunal.

 

Já o narrador da história, o jornalista (Bruce Willis) que, apesar de ter percebido que o nosso herói é um joguete nas mãos dos vários elementos do poder, também o utiliza e à sua narrativa da desgraça, para se lançar como escritor premiado. Como ele próprio diz ao receber o prémio: perde a alma mas  há compensações. Refere-se o nosso cínico escritor à visibilidade e dinheiro, outras formas de poder.

  

Vale a pena rever o filme pelas personagens e pelos actores, mas o que fica da mensagem do filme é resumido neste discurso do juiz (precisamente Morgan Freeman) antes do veredicto final:

 

 

  

 

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publicado às 23:29

E tudo começou num simples memorando, numa lista de intenções...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 28.05.11

 

Este rio saltou o mês de Abril, já repararam? Passou por uns rápidos tão agitados que por pouco a nossa frágil jangada se despedaçava nos rochedos laterais. Quando a água atravessa uma garganta subitamente estreita e há um desnível no leito, tudo se torna violento e ensurdecedor. Essa é a incrível força da natureza. E da vida também. A lógica da vida segue a lógica da natureza. A Marilyn desmaia de exaustão, o miúdo grita o seu nome e pergunta ao pai se ela vai morrer. O Robert Mitchum terá de a reanimar e tudo volta à rotina pacífica dos dias e das noites, mas não por muito tempo. Todos sonham com essa paz doce e amena, mas a vida terrena não permite tal ideal de vida, talvez porque a própria natureza desconhece essa quietude, e a vida exija constante agitação. Afinal, estar vivo é estar activo, é estar a mudar constantemente.

 

Neste outro filme, Jerry Maguire, há também um homem, uma mulher e um miúdo. Este filme sempre me impressionou, porque mostra uma perspectiva que raramente vemos nos relacionamentos: o início de uma colaboração baseada na inspiração de um simples memorando. O homem que se inspirou e escreveu um memorando, e com esse memorando inspirou a rapariga. Era apenas uma lista de intenções, dir-lhe-á quando se viu fora da empresa. Esta cena é das mais interessantes que eu já vi em filmes sobre as relações de poder em grandes empresas e sobre o trabalho competitivo. A rapariga acompanha-o nessa saída, inspirada pelo que leu nesse memorando. Acredita nele e segue-o. Mais tarde, ele dirá ao amigo que essa fora a razão de ter casado com ela: foi leal.

 

Bem, antes de se lançar nessa aventura dos afectos, da definição de um lugar familiar, podemos mesmo dizer que houve uma revolução na vida deste homem de discurso fácil e sorriso sedutor. A lógica da sua vida já não é suficiente. E só vê isso quando está na mó de baixo. A reacção da namorada não o satisfaz: culpa-o de ser um falhado. Talvez só nessa altura ele tenha percebido que a sua relação tinha bases muito pouco sólidas. Acaba por terminar ali mesmo o compromisso, levando ainda dois valentes murros de uma namorada em fúria.

É nesse estado, confuso e fragilizado, que aparece à rapariga leal. Um outro equívoco surge: fica encantado com o filho da rapariga. Criam de imediato uma cumplicidade bem-humorada. Também dirá ao amigo a outra razão de estar com ela: o miúdo é engraçadíssimo.

 

A cena mais sexy do filme: quando ele a leva a casa. É talvez a mais sexy que alguma vez vi à porta de casa de uma rapariga (e nos filmes americanos eles vão acompanhá-las mesmo à porta e ficam à espera do beijo). Registei a banda sonora da cena, porque a cena é deliciosa: ela no seu vestidinho preto, de alças, ele todo sedutor e insinuante.

 

É claro que, como a maioria das comédias românticas americanas, está cheia de clichés, (mas até não são dos piores, como um dia ainda hei-de aqui referir, tenho toda uma lista deles), mas o filme é, pelo menos para mim, mais do que uma simples comédia romântica.

Retrata o mundo competitivo dos agentes desportivos, mas também o mundo competitivo dos jogadores profissionais, os riscos que correm, em que um erro na sua carreira pode pôr tudo a perder.

Fala da amizade e da lealdade: não apenas do Jerry e da rapariga, mas também do Jerry e do jogador que representa.

Mostra os equívocos iniciais de uma relação amorosa e a complexidade das razões que a mantêm. E que, mesmo começando com o pé esquerdo, se pode retomar o caminho, porque o que os liga é muito mais forte do que inicialmente pensavam.

 

Mas a mensagem mais importante do filme está na discussão entre Jerry e o jogador: tens de jogar com o coração... não pode ser calculismo financeiro, tem de haver paixão.

Bem, o jogador irá despertar em si mesmo essa paixão nos jogos seguintes, sem dúvida, até ao jogo memorável, em que toda a assistência fica na expectativa quando desmaia na sequência de uma queda aparatosa. Minutos de aflição da mulher, dos filhos e do Jerry. Quando finalmente acorda e antes de se levantar, diz ao treinador, com ar malicioso: Deixem-me saborear isto só um pouco mais. Uma cena fabulosa e hilariante!

 

A família, aqui vista como um lugar-refúgio, no meio de um mundo cínico, muito competitivo e hostil. E a amizade, como base das relações, mesmo as profissionais.

A identidade como construção a partir de experiências vividas, como o que se lê no olhar de outros: o homem que ele quer ser... o homem que ele pode ser...

 

 

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publicado às 11:05

O que permanece, haja o que houver

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.12.10

 

Sim, o rio continua a navegar, agora mais calmo, mais parece um lago, quase nos podemos ver nesse espelho azulado. A Marilyn continua a cantar na sua viola para o rapazinho, e o Robert Mitchum ainda apanha peixes do rio, que à noite assa na fogueira onde também aquece o café. Por vezes conversam enquanto o rapazinho dorme, mas mais parece que desconversam. São assim tantas vezes os diálogos entre homens e mulheres. Porque será?

Gostava de vos falar de um filme que nos inspirasse a todos para entrar no ano que agora começa. Repetimos este ritual de passagem todos os anos, mas na verdade trata-se de uma continuidade, como este rio. De qualquer modo, insistimos em iniciar um ano novinho em folha, abrimos uma nova agenda, fazemos uma lista de coisas a mudar... E no entanto tudo depende da nossa convicção interior, aquela que nunca muda, a que permanece igual a si própria, a sensação de saber quem somos, haja o que houver.

Que filme nos inspira assim? A convicção interior? Tudo o que permanece? A ver se o descubro entretanto nos meus registos da memória. A tempo de entrar num novo ano que é apenas a continuidade do ano que hoje termina.

 

Aqui vai um filme que vi há cerca de um mês e que pode exemplificar, numa das suas personagens, essa permanência, esse saber quem se é, haja o que houver. Neste caso também, sobre os seus sentimentos.

Written On The Wind, de Douglas Sirk, revela-nos de novo um homem simples, leal, íntegro, e de novo num Rock Hudson que veste bem essa pele. Tal como em All That Heaven Allows, trata-se de uma personagem que se organiza de forma segura em valores da permanência: família, amizade, amor, lealdade. E para quem os sentimentos são simples e claros, o amor e a amizade são sempre acompanhados da lealdade. O amor só é revelado quando as circunstâncias o permitem e não antes, porque respeita quem ama. Não se trata, no entanto, de um amor cego, observa e avalia as qualidades da amada. A ingenuidade não faz parte da personagem, é perspicaz e responsável. E nunca abandona o amigo, só o enfrentando para a defender.

 

O filme também nos mostra como a segurança aparente de um império familiar não é base da permanência. A permanência não é exterior, é interior, está dentro de cada um de nós. Tudo o que se ergue à nossa volta pode derrocar, só a nossa convicção interior permanece, os valores essenciais. A família Hadley cai na auto-destruição e na solidão. Os nossos heróis descobrem a segurança em si próprios e um no outro.

 

A linguagem do filme é fluída, bem ritmada, e sempre elegante, à Douglas Sirk. Não há demasiada informação, apenas a essencial. É um drama recorrente. Cada personagem leva a sua bagagem simbólica: em Kyle, a dependência, a eterna adolescência, a imaturidade, a super-protecção, a perda de objectivos, o tédio de viver; em Marylee, a rejeição de Mitch por quem tem um amor obsessivo, a natureza caprichosa e infantil, a sedução, a sensualidade; em Lucy, a auto-confiança, a autonomia, o profissionalismo, a capacidade de afecto; e em Mitch, as tais qualidades da permanência referidas no início.

 

Que este e outros filmes vos inspirem, queridos Viajantes, a encarar cada Novo Ano com a convicção interior da vossa permanência essencial! Que encontrem essa segurança dentro de cada um de vós!

 

 

 

 

 

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publicado às 22:40

Os meus heróis: Robert Preston, o amigo franco e leal

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 11.09.10

 

E aqui vai outro dos meus heróis, Robert Preston, o actor-personagem da franqueza mais desarmante e da amizade leal. Se o viram como eu em vários filmes devem ter reparado nesse olhar tão despido de artifícios ou sombras. Mesmo a enfrentar uma rejeição, e uma rejeição sem-cerimónias como aquela da Debbie Reynolds em How West was Won, Robert Preston não desarma, insiste com a mulher mais teimosa e arisca que tinha encontrado, que ele é que a saberá apreciar. Ainda por cima irá conhecer o seu rival e verificar que aquela mulher escolhera o homem errado, um homem que não a merece. Estas coisas acontecem, aliás estão sempre a acontecer, e não é só às mulheres, aos homens também. Desencontros, equívocos, atracções fatais.

 

Mas vamos começar pelo princípio. Porque fui eu buscar Robert Preston ao baú das memórias? Nem eu sei, mas este actor teve desde logo um efeito tranquilizante, aquele ar franco, sem artifícios, mesmo nesse insólito papel no Victor, Victoria. Nunca resisto a rever as cenas com o Robert Preston, aqui na pele de um velho drag queen, amigo leal e criativo da Julie Andrews. Desde a cena do restaurante, dois esfomeados em Paris, até ao espectáculo em que, vestido de sevilhana, canta e dança no palco. Robert Preston é o amigo das horas difíceis, criativo, divertido e generoso. Dirá sempre o que pensa, sem subterfúgios nem evasões.

 

Outro dos seus papéis mais enternecedores é muito pouco conhecido. Vi-o uma única vez na televisão, talvez nalgum ciclo dos anos 90. O próprio filme, Finnegan Begin Again, é já dos anos 80. Nele vemos um Robert Preston sessentão que se apaixona por uma mulher muito mais jovem, Mary Tyler Moore. O filme é uma magnífica inspiração para quem não quer desistir de comunicar de forma afectiva, de apoiar e ser apoiado, animar e ser animado. Encontram um no outro o apoio e o carinho. Finalmente, o Robert Preston tenta mostrar à Mary Tyler Moore que a sua diferença de idades é um problema real. A cena final foi a que registei na memória para sempre. Vemo-los deitados no chão da sala, muito descontraídos, pelo menos é assim que recordo a cena. Ele diz-lhe: Mas eu estou a cair do tripé... Ela responde: Prefiro dois anos contigo do que dez com outro homem. Se esta não é uma magnífica declaração de amor, então o que é?

 

Identifiquei-o mais recentemente num pequeníssimo papel, num filme que desconhecia e que aqui coloquei a navegar, Reap the Wild Wind. Ainda muito jovem mas já com aquela voz inconfundível.

Essa é a sua marca registada, aquela voz... uma voz grave, cantante, que nos assegura que podemos contar com ele. Uma voz assim que nos anima quando queremos desistir, que nos ajuda a ver um caminho possível. É isso que esperamos de um amigo franco e leal. Que nos ouça nas horas tardias e nos enxugue as lágrimas, como naquela magnífica cena do Victor, Victoria, quando a Julie Andrews descobre que o vestido tinha encolhido.

Ao longo destes anos de filmes tê-lo-ei visto em mais um ou dois, mas ainda não consegui identificá-los. Já corri a lista do IMDB, mas nem assim... Descobri, no entanto, que fez muita Broadway (não admira) e muita televisão (não sabia).

Robert Preston é um dos actores que me marcaram para sempre, como se fossem personagens com que interagi na vida real. O seu olhar, o seu rosto largo, e a sua voz magnífica...

 

 

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publicado às 21:39

Como boicotar a sua própria felicidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 09.08.09

 

As surpresas do fim de um dia podem acontecer-nos até em francês! Não faz mal. Emma Thompson e Anthony Hopkins dobrados na língua romântica da Europa, passa. É heresia, eu sei, e também prefiro mil vezes as vozes dos actores, são indissociáveis dos actores e tudo isso, mas... gosto tanto tanto deste estranho filme que fiquei a vê-lo mesmo assim dobradinho...

 

The Remains of The Day, um dos filmes mais estranhos e tristes, pelo menos para mim. Há lá coisa mais triste que a incapacidade de comunicar? E tendo todos os elementos necessários: Mr. Stevens não é cego nem surdo nem mudo, mas é como se o fosse, ou pior ainda!, uma alma  incapaz da expressão dos afectos e fechada aos afectos de outros.

 

Se tivesse de procurar em cinema a personagem-contraste com este mordomo iria parar ali no escritor d' O Meu Pé Esquerdo. Tudo o impossibilitava e limitava para a comunicação com outros seres humanos. Não só limitações físicas, também as sociais, um meio operário, embora numa família muito especial, sensível à cultura, o que em si já é magnífico!

 

É esta rigidez formal que irá impedir Mr. Stevens de ser feliz na companhia de uma mulher que, além de o amar, o aceita com as suas idiossincrasias, o que já é um achado, uma raridade. Mas esta mulher é especial, o equivalente para Mr. Stevens da mãe para o escritor, capazes desse amor incondicional, de os aceitar tal como são.

 

Sim, embora alguns textos sobre o filme refiram esta lealdade de um mordomo, penso que o que vemos aqui ultrapassa tudo isso: trata-se de uma clara dificuldade em aceitar, exprimir e viver os afectos.

Mr. Stevens fechou-se de tal modo nesse uniforme, nesse papel de uma lealdade formal, que se esqueceu de viver, de levar uma vida acompanhada, de sintonizar afectivamente com essa mulher. Nem mesmo quando a ouve chorar, desamparada, no maior desespero. O que lhe diz? Fala-lhe de pormenores da casa, de trabalho: um recanto na adega que precisa de ser mais cuidado pelo pessoal!

E no entanto vemo-lo perturbado, pelos sentimentos que pressente nela e em si mesmo.

 

Sim, Mr. Stevens torna-se perito em boicotar a possibilidade da sua felicidade.

 

Este filme continua a acompanhar-me. Este Mr. Stevens incomoda-me, ficou a moer-me os neurónios:

Mr. Stevens deixou-a partir. Sabia, porque ela lhe dissera, que uma palavra sua, um gesto seu, a teria impedido de partir. Mas nada lhe disse, nada fez para que ela ficasse.

 

Os anos somaram-se. Miss Kenton construiu uma vida familiar, essa construção afectiva a que as mulheres se ligam de forma visceral (ou animica). Sem saber bem o motivo, aqui pensei num texto de Marguerite Duras, A Casa, (1) e foi a partir desse texto claro e cru, que comecei a perceber a partida de Miss Kenton para essa família possível, essa casa habitável porque sua, por si sonhada.

 

Mas este Mr. Stevens ficou ainda a moer-me os neurónios! Depois de a deixar partir e de ter visto esses anos somarem-se uns aos outros, e de ter visto a sua realidade, a triste lealdade canina a um mundo para o qual ele apenas existe enquanto for funcional, Mr. Stevens ainda espera que ela volte. E mesmo quando a vai visitar pensa nessa possibilidade.

Mas a mulher construiu uma família, casa. O seu novo centro de gravidade. O homem tem dificuldade em entender isto, como nos diz Marguerite Duras.  (2)

 

Reparem bem naquela despedida, nessa noite chuvosa. De todas as despedidas que já vi em cinema, esta só é comparável à da Ida Lupino e do Humphrey Bogart no High Sierra, quando também ele a deixa num autocarro.

 

Ainda vou voltar aqui a este filme que não me larga, nem que mais não seja para o corrigir e colocar acentos e cedilhas.

Mas antes disso, preciso esclarecer melhor essas diferenças de perspectiva da casa e da família possível, do homem e da mulher. E para isso vou pegar de novo no texto de Marguerite Duras:

"Penso, fundamentalmente, que a situação da mulher não mudou. A mulher encarrega-se de tudo na casa mesmo que a ajudem, e mesmo que seja muito mais informada, muito mais inteligente, muito mais audaciosa do que era antes. Mesmo que tenha agora muito mais confiança em si. Mesmo que tenha escrito muito mais, a mulher em relação ao homem ainda não mudou. A sua aspiração essencial ainda é manter a família, tratar dela. E se socialmente mudou, tudo o que fez, está a fazê-lo além disso, dessa mudança. Mas o homem terá mudado? Praticamente, não. Talvez grite menos. Também se cala mais, agora. Sim. Nao se vê que haja mais nada para dizer. Acontece-lhe estar em silêncio. Chegar ao silêncio naturalmente. Descansar do barulho da sua própria voz.

A mulher é o lar. Era. Ainda ali está. Podem fazer-me a seguinte pergunta: E quando o homem se aproxima do lar, a mulher suporta-o? Digo que sim. Sim, porque nesse momento o homem faz parte das crianças. ..."    (3)

 

 

 

(1)  Duras, Marguerite - A Vida Material - Círculo de Leitores, Julho de 2003

(2)  "... a permanência da mulher na casa continua a ser da mesma natureza. Trata-se sempre de uma existência como se estivesse escrita, já descrita, mesmo aos seus próprios olhos. De um papel, de certo modo, no sentido habitual do termo, mas que ela representaria para si própria inevitavelmente e sem quase ter consciência: assim, no teatro da solidão profunda que é durante séculos o da sua vida, dessa maneira, a mulher viaja. Essa viagem não é guerras nem cruzadas,  é na casa, na floresa, e na cabeça crivada de crenças, muitas vezes enferma, doente.  ... O homem não sabe desta partida das mulheres. O homem talvez não saiba destas coisas. O homem está ocupado com um trabalho, uma profissão, tem uma responsabilidade que não abandona nunca, que faz com que ele não saiba nada das mulheres, nada da liberdade das mulheres. Muito cedo na história, o homem deixa de ter liberdade."  (pags. 58, 59)

(3)  Duras, Marguerite - A Vida Material -Círculo de Leitores, Julho de 2003, pags. 53, 54.

 

 

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publicado às 18:20

O valor intrínseco de cada indivíduo

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 06.10.08

 

Um grupo de vadios, inadaptados ou excluídos (como agora estranhamente se diz), uma zona de fábricas de conserva abandonadas, uma casa de meninas onde diversos espécimens vão dar à costa, um rebelde estudioso de biologia marinha em regime independente, que anda a preparar um livro que nunca termina... John Huston como Narrador... e tudo filmado em estúdio... Mais um produto mágico, uma síntese feliz... Cannery Row...

John Huston, que sempre compreendeu os inadaptados, aqui a enlevar-se com o texto magnífico de John Steinbeck.

 

Se observarmos este grupo de vadios vemos que revela qualidades que dificilmente encontramos nos socialmente adaptados. Não acreditam? Afecto genuíno, lealdade, amizade, protecção do mais frágil, coesão de grupo. Ainda que os seus métodos sejam... enfim, muito discutíveis.

Revelam, além disso, uma surpreendente capacidade de organização: passam a vida a angariar uns tostões em preparação de festas e nem precisam de grandes razões para festejar. O resultados dessas festas é invariavelmente uma bebedeira monumental e a destruição da casa-laboratório do Doc...

Este grupo de vadios, além destas qualidades tão mal encaminhadas, pratica ginástica matinal (muito aldrabada) e ainda programa de vez em quando uns jogos de baseball com as meninas da Casa.

Ah, e faltam aqui duas personagens importantíssimas para completar a história: o Visionário e a Rapariga. É até com eles que a história começa: a Rapariga, de mala na mão, chapelinho na cabeça e longo casaco (anos 40), surge naquele lugar improvável e vê, numa rocha à beira-mar, um saco de papel. Aproxima-se. Pela sofreguidão com que pega num pão vemos que vem esfomeada. O Visionário aborda-a. A Rapariga atrapalha-se e volta a colocar o pão no saco, constrangida. O Visionário então diz-lhe esta coisa extraordinária, que Deus cuida dele, e que coma à vontade.

Só mais tarde a Rapariga, que é muito observadora, verá que Deus é o Doc que, subrepticiamente, coloca lá os sacos para o Visionário.

Entretanto, a Rapariga, que não encontra trabalho por ali em lado nenhum, nem mesmo no único café, acabará por ir parar à Casa das Meninas. Inicialmente relutante. Não parece talhada para aquele papel. A Madame, consciente disso, desafiará o Doc a encaminhá-la para outra solução.

 

Cenas fenomenais:

- A preparação do Doc antes de ir jantar com a Rapariga, em que terá de voltar a casa vestir-se a rigor para não contrastar com ela;

- Toda a cena do jantar a dois, descrita e acompanhada pela voz encantatória de John Huston;

- A dança acrobática (loucos anos 40) do Doc e da Rapariga, esta vestida de Pastorinha (para estimular as fantasias dos visitantes);

- A preparação da festa para o Doc, pelo nosso grupo, que inclui uma verdadeira "caça às rãs" para vender e angariar os preciosos tostões;

- O jogo de baseball, vadios e meninas, em que o Visionário revela todo o seu talento para o desporto;

- Os dilemas éticos de Hazel, o vadio mais ingénuo, o mais generoso também, e o mais protegido pelo grupo; e a sua terrível decisão-limite, para ajudar um amigo em sofrimento...

 

Para chegar à ideia que dá razão de ser ao título, "o valor intrínseco de cada indivíduo", ainda preciso de pedalar mais um pouco. Agradeço desde já a paciência dos viajantes que toleram as minhas interrupções... Às vezes inicio caminhos a pique para os quais não tenho o fôlego necessário... pelo menos para os trepar de uma só vez...

 

Estes Vadios não incomodam ninguém. E como diz a Madame à Rapariga, não gostam de falar do passado. Se tentarmos ser objectivos, veremos que há incluídos e adaptados a fazer mais estragos sociais do que estes Rapazes (the boys). John Steinbeck (e também John Huston) olham a vadiagem sem qualquer interferência moralista, apenas como um facto, uma realidade.

Quando conseguirmos olhar cada indivíduo pelo seu valor intrínseco, pela sua própria existência, esta distinção incluídos-excluídos nem se coloca. Todos serão incluídos, pelo simples facto de existirem. Mas o facto de existirem não obriga ninguém a seguir os passos miméticos de uma sociedade que até se pode considerar, no mínimo, doente e decadente. Porque numa sociedade saudável, ou que disso procura aproximar-se, cada indivíduo será respeitado por si mesmo. E ao ser respeitado por si mesmo, mais facilmente encontrará o seu lugar e o seu percurso natural. Não haverá lugar para moralismos, paternalismos, imposições, porque já não farão sentido.

 

Mas há em Cannery Row outro ângulo interessante: o valor responsabilidade. O Doc sente-se responsável pelo Visionário. Ninguém precisa de lho lembrar. Assume essa responsabilidade como um valor próprio da sua natureza. E também em relação à Rapariga, o Doc descobre a seu tempo, que ela é muito mais importante na sua vida do que teria desejado no início. É ultrapassado pelos acontecimentos. Quando ganha coragem para lho confessar, vê-a distante, implacável. E  percebe dolorosamente que a perdeu. E que há erros na vida que simplesmente não conseguimos consertar.

A conversa na Caldeira (a nova habitação da Rapariga, que agora já trabalha no café), é verdadeiramente comovente. Claro que só mesmo a intervenção de alguém como Hazel poderá compor este desencontro. Só alguém com uma infinita ingenuidade poderá descobrir a solução-limite para o sofrimento do Doc. A Rapariga tinha-lhe dito que lhe levaria uma sopa se estivesse doente ou com um braço partido. O destino do Doc fica inscrito nestas palavras casuais da Rapariga.

Mas voltando ao valor "responsabilidade pelo amigo": o Doc mal sabe tomar conta de si próprio! É um cientista autodidacta e rebelde, que vive sozinho numa casa-laboratório rodeado de espécimens marinhos. E no entanto... cuidará do amigo até ao fim. É mais do que poderemos encontrar na sociedade socialmente organizada, não acham?

Mas trata-se de John Steinbeck! O autor d' As Vinhas da Ira que John Ford traduziu para a linguagem do Cinema naquele impossível preto e branco, naquela atmosfera única! E o autor, igualmente, de um dos livros mais perturbadores que eu já li: A um Deus Desconhecido. Alguém me sabe dizer se já houve alguém a tentar traduzi-lo para linguagem do Cinema? Dava um filme mágico!

 

 

 

Obs.: É deste filme uma das minhas lines preferidas. Depois da dança acrobática, a Rapariga que é uma fanática de baseball, fala dessa época de glória do Doc quando era uma estrela do baseball, não entendendo porque largou tudo assim, repentinamente, e deixa cair no meio da conversa o nome Louis Delano. O Doc senta-se no sofá e diz incrédulo e escandalizado: Eih! Louis Delano!? Quem tu foste logo escolher para ser o teu herói!? É uma das lines que utilizo frequentemente sempre que vejo alguém ser colocado num qualquer pedestal sem qualquer mérito próprio.

 

 

 

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publicado às 17:34

 

Forrest Gump. Ultrapassar as limitações que a vida lhe trouxe. Aproveitar todas as oportunidades que lhe surgem. Enfrentar cada situação em que está metido, mesmo a mais adversa possível como a guerra do Vietname, pelo melhor ângulo: a lealdade, acima de tudo. Amar sem questionar nada, só por amar.

É inspirador, no mínimo.

É certo que o nosso herói tem uma mãe fora do comum. (1) Mas também é certo que ele já vem com essa marca registada, uma energia muito sua, que se orienta e depois se mantém nessa direcção. A sua bússula interior.

Foi assim com o primeiro e único amor. Que irá salvar a todo o lado, a todo o custo, mesmo contra a vontade dela!

Não há pedras suficientes, dirá ao vê-la um dia, desesperada, atirar pedras à casa agora vazia.

Foi assim com o amigo e companheiro no treino militar e depois no Vietname. Perderá o amigo naquela selva, mas trará outro às costas, mesmo contra a vontade do próprio! E como combinara com o amigo morto, irá dedicar-se à pesca do camarão.

 

O sucesso de Forrest Gump não é um puro acaso, como somos levados a pensar. O sucesso de Forrest Gump também não está na sua fortuna, surpreendentemente adquirida na pesca do camarão. O sucesso de Forrest Gump é ele mesmo! Uma raridade, em si mesmo. Uma inspiração.

Alguém à partida tão pouco talhado para a adaptação a um mundo áspero e competitivo, conseguir a autonomia e a vida familiar que Forrest construiu... Alguém que coloca o amor, a amizade, a lealdade, acima de tudo, conseguir conviver tão bem com um mundo cínico e desleal...

Zemeckis mostra aqui essa possibilidade.

 

Este é, para mim, o papel de Tom Hanks. (2)

A banda sonora, magnífica!

E os efeitos especiais, que incluíram sobreposições engenhosas com Forrest a inter-agir com personagens dos anos 60!

 

A parte mais hilariante: o pormenor da corrida de Forrest pelas estradas desertas, já seguido por uma multidão. Neste caso Forrest corre para apaziguar um desgosto. Um dia pára de repente, em plena estrada, deixando todos os que o seguem desorientados e confusos. É que a bússula tem de ser interior. Terão de a descobrir por si próprios.

 

É muito interessante a perspectiva do filme que fala da realidade de uma forma absolutamente original. É como se a perspectiva fosse mesmo essa: de que nos serve falar dos nossos abismos e desertos? O que interessa é a escalada e a travessia! Ultrapassar os condicionalismos, os obstáculos, os nossos medos, as nossas contradições. E a natureza humana, nisso, é exímia! Em situações-limite é capaz de se surpreender a si própria!

Também pode ser lido de um outro ângulo: as nossas vidas, por mais insípidas que sejam, já têm em si mesmas todos os ingredientes necessários, imensos mistérios por desvendar, abismos por escalar, desertos por atravessar.

Forrest Gump também nos mostra que a natureza humana procura, instintivamente, a sua sobrevivência, salvar a pele. É para escapar à violência de matulões agressivos que Forrest começa a correr. A partir daí, ninguém mais o pára. Corre no campo de futebol. Corre em plena selva no Vietname. E corre estrada fora.

É também esta ideia essencial da acção: perante uma situação, age, segue o seu instinto. Também é engraçado pensar que foram as adversidades que lhe deram o primeiro empurrão.

 

 

 

(1)  O olhar da mãe que o aceita tal como é, que vê as suas qualidades e potencialidades, que não o reduz e limita. A mãe é a primeira a instilar nele a ideia das possibilidades. Perante uma situação, o que se pode fazer?

(2)  E também o papel de Gary Sinise.

 

 

 

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publicado às 17:23

O homem que tudo faz para ser livre e o outro que tem medo da liberdade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.08.08

 

Um jovem bancário é acusado de homicídio e condenado a prisão perpétua. Nunca se conformará com a sua situação e tudo fará para lhe escapar.

Um veterano da vida em cativeiro aconselha-o, tentando protegê-lo: se quer sobreviver ali, tem de aceitar a sua nova condição, de prisioneiro, e desistir da esperança.

Estranho conselho... E isso foi logo o que me impressionou em The Shawshank Redemption. (1)

Morgan Freeman (2) aqui no seu papel, o do prisioneiro-veterano, o que pensa ter conseguido converter o jovem revoltado.

Mas o nosso jovem, um altíssimo Tim Robbins, não só não desistirá nunca, como tudo fará para preparar a sua vida pós-cativeiro!

 

Não, não vou estragar o filme aos que ainda não o viram. Só dou uma pista marota: o nosso jovem bancário é simplesmente um "mago financeiro", perito em investimentos, transferências de fundos, manipulações de relatórios contabilísticos. E o Director da prisão, que é muito mauzinho como quase todos o são nos filmes, pede-lhe conselhos sobre investimentos...

A amizade dos dois homens, o jovem e o veterano, é talvez o que mais impressiona no filme: os laços são muito mais fortes quando se partilha o pior. Há uma lealdade para a vida, aconteça o que acontecer.

Mas a razão que me levará a revê-lo está nesta palavra, dita com amargura e desencanto por Morgan Freeman: institutionalized. Ele explica: após anos na prisão, uma pessoa deixa de conceber uma outra vida que não seja aquela. Passa a ter medo da liberdade. Ele acha que no seu caso é tarde demais, que não se vai adaptar à vida lá fora, quando terminar a pena.

 

Institutionalized, definição genial para a habituação à total dependência. Perda da autonomia, da noção de esperança, de uma vida projectada no futuro. (Impressionante noção, que pode ser aplicada a outras situações de dependência social, já repararam?) Sempre que se retira a alguém essa possibilidade de pensar por si próprio, de descobrir, de arriscar, de decidir, tira-se-lhe a energia vital, uma razão de viver, a sua bússula interna, a sua rota, as suas prioridades. Para sobreviver em cativeiro, para não enlouquecer, uns optam pela desistência. Daí o medo da liberdade.

E a realidade é mesmo essa. O filme também a refere: ex-presidiários no primeiro dia de liberdade, que passam por essa fase, o contacto no exterior, o emprego, o quarto, o suicídio.

Mas não será assim com Morgan Freeman. É provável que já tenha contado demais, mas aí vai: o amigo, antes de escapar, fá-lo memorizar um percurso, um roteiro. É esse percurso que ele seguirá quando se vê fora das grades.

 

Sim, podíamos pegar em The Shawshank Redemption pelo sabor da liberdade. Mas resolvi destacar esta definição genial: institutionalized. É muito actual, a meu ver, nas suas diversas aplicações. Vemos esse processo, no seu limite, no também genial 1984. A organização de toda uma sociedade para a vida em cativeiro.

 

 

 

(1) Na tradução do título, ficou Os Condenados de Shawshank, e como não gosto da palavra condenados... embora aqui viesse mesmo a calhar... De referir o mais importante: assim como o Stand by me, é baseado numa novela de Stephen King.

(2) Morgan Freeman, que me pregou recentemente um valente susto ao quase partir deste mundo numa estrada do Mississippi... O único actor que pode fazer de Deus. Lembram-se?, em que o Steve Carell faz de Noé?...

 

 

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publicado às 16:01

"I know things about people, Lilly..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 20.08.08

 

Esta é, para mim, a frase mais sedutora dos filmes que vi. Clint Eastwood já entradote, em herói solitário e desencantado, a tentar recuperar o tempo perdido, "I've got to come back", porque falhou da primeira vez... Na Linha de Fogo, pois.

Podem questionar-me: o quê? Clint Eastwood, e já entradote, o mais sedutor? Então, e Clark Gable, Gary Cooper, William Holden, Burt Lancaster, Paul Newman, George Clooney? Tudo bem, todos eles! E tantos outros! Mas... I know things about people, Lilly... na voz de um herói já fora de prazo, é a sedução perfeita, porque não é apenas um jogo que se joga por jogar, é a sério!, tem consistência, é uma cumplicidade de iguais, uma cumplicidade brincalhona e inteligente, parecida com a lealdade e a confiança, como se formassem uma equipa.

 

Amanhã continuo a minha defesa da sedução neste filme e por este filme...

 

O que me seduziu n' A Linha de Fogo, pois. A qualidade dos diálogos. Já não há diálogos assim. Só os vemos nos filmes dos anos 30, 40, 50. Também a fotografia, belíssima. E a música que nos embala, Ennio Morricone...

O tema do filme nem é muito interessante: um agente obcecado por ter falhado na protecção do Presidente Kennedy e que insiste em se manter no activo apesar da idade. Todos ali o querem ver pelas costas porque o consideram um obsessivo, com demasiadas exigências para apertar a segurança e reduzir os riscos. Isto em ano de eleições, dizem-lhe, não vem nada a calhar. Mas o nosso herói lá consegue ser destacado para a segurança do Presidente e, caso seja necessário, ainda irá apanhar com a bala mortal.

 

Esta é a minha personagem preferida de Clint Eastwood. Aqui acompanhado na perfeição por Rene Russo, a Lilly, no seu papel também. O encontro dos dois, magnífico! Deles podíamos dizer: e tudo começou de uma forma provocadora e sedutora. Sim, terrivelmente sedutora. I know things about people, Lilly...

Mais tarde Lilly perguntar-lhe-á: "Porque está sempre a namoriscar comigo?"

(Ah, porquê? Nós vemos perfeitamente porquê.)

"Se ela olhar para trás, é porque está interessada."  ...

E ela olhou.

Será assim até ao final do filme. A construção de uma amizade leal e de uma cumplicidade sedutora. Ao som do jazz.

Apesar das muitas peripécias, com os telefonemas de um psicopata pelo meio, e todos a afastá-lo das funções, Lilly irá defendê-lo até ao fim. E é um herói muito pouco convencional que lhe perguntará no avião: "E o que aconteceria se eu desistisse do meu trabalho por si?"

Ah, a cena final, ao som de Ennio Morricone, aquela claridade, tudo nos deixa sem palavras... a não ser, as de Clint Eastwood: I know things about pigeons, Lilly...

(Sim, isso mesmo. A conversa tranquila, lado a lado, desta vez é mesmo sobre pombos.)

 

 

 

Obs.: Podia ter escolhido o Clint Eastwood-realizador, onde é visível o seu enorme talento e o seu amor ao Cinema, mas não é esse o meu Clint Eastwood. O meu Clint Eastwood é o que largou o cavalo e as planícies do oeste e entrou na cidade, num carro-banheira dos anos 70. O Clint Eastwood já entradote, o herói solitário e romântico, independente até à medula, nada convencional, que pensa pela própria cabeça (o que lhe trará sempre problemas), e que gosta de jazz. Mesmo que esses filmes não sejam filmes maiores, como os seus, as suas personagens são sempre fabulosas.

 

 

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publicado às 15:45

"Aqueles Verões salvaram-me a vida..."

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 14.03.08

 

A Good Yearé uma história muito simples. No fundo, é sobre a vida, a amizade, o amor. Os dias felizes.

A personagem dirá a meio: Aqueles Verões salvaram-me a vida. A vida, que o nosso herói vê perfeitamente no dilema que lhe é colocado pelo chefe: É só escolher… o dinheiro… ou a vida.

E tudo se compõe porque a base estava lá. O tio, a casa, a vinha, a amizade, a vida afinal.

O excêntrico tio que um dia na adega perguntara ao sobrinho: “O que é mais importante na comédia?” E a resposta certa: “O timing.”

Em Ridley Scott o timing é fundamental. Assim como a noção de ritmo: rápido ou lento, aos solavancos ou em valsa, sincopado ou deslizante. E tudo no tempo certo.

Numa linguagem tão complexa e diversa, como é a do cinema, pode contar-se uma história de mil e uma formas. E é isso que o torna fascinante.

 

 

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publicado às 12:40


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